• Fernanda Bahia

Brasileiro injustiçado no Big Wave Awards?

O brasileiro Caio Vaz pode ter sido injustiçado no "Óscar de Ondas Gigantes" promovido pela WSL. Chamamos um especialista para fazer a medição das ondas finalistas e comparar com a de Caio Vaz, e descobrimos que a maior onda surfada, não venceu.

O Big Wave Awards da WSL rolou nesse último mês e todas as categorias já anunciaram seus campeões. A polêmica aparece na categoria de Maior Onda Surfada na Temporada, que teve seus vencedores anunciados no último dia 17 de agosto. A onda do brasileiro Caio Vaz, em Nazaré, não foi sequer escolhida para a final, mesmo sendo considerada a grande favorita para levar o prêmio. E segundo os dados obtidos para essa matéria, afirmamos, se o critério é o de maior onda surfada, o Caio poderia ter levado.

Onda de Caio Vaz (esquerda) pode ter quebrado recorde mundial de Rodrigo Koxa (direita).


O questionamento levantado foi: em uma categoria objetiva, na qual o que importa é o tamanho da onda, porque Caio Vaz foi injustiçado no campeonato? Para investigar, chamamos Douglas Nemes, doutor em oceanografia e especialista em medição de ondas, responsável, inclusive, por medir a onda dos Gigantes de Nazaré e o recorde mundial da Maya Gabeira. Ele recebeu a missão de calcular a onda de Caio e comparar com as dos outros surfistas finalistas do prêmio, inclusive do vencedor Kai Lenny.


Para realizar a medição das ondas, Douglas utilizou todos os ângulos de vídeo e fotos disponíveis de cada onda finalista no site da WSL. Douglas explica: "transformei informações tridimensionais (surfistas e ondas) em um plano bidimensional de escala mensurável, através de trigonometria, decomposição de imagens e mecânica das ondas. Isto significa que podemos comparar as ondas surfadas em escalas iguais."


O cálculo foi feito a partir da altura e posição de cada surfista, e por isso as ondas podem ser comparadas entre elas. A variação de tamanho entre as imagens diferentes de uma mesma onda acontece devido a diferença na resolução das câmeras e há uma variação possível no resultado também indicada no cálculo. Aqui está o que foi descoberto:


Kai Lenny


O surfista havaiano teve três ondas entre as finalistas da categoria de maior onda. A primeira, em Jaws, no Hawaii, é de dezembro de 2019. Douglas usou dois ângulos para calcular o tamanho da onda e chegou em resultados próximos: no primeiro ângulo, o resultado foi de 19.3m de onda, com variação de 1.5m, para mais ou para menos; no segundo a onda chega a 19.4m, e a variação é de mais ou menos 1.3m.

Kai Lenny (Jaws, Maui, Hawaii) – 2 ângulos:

1. 19.3m (variação de +/- 1.5m)

2. 19.4m (variação de +/- 1.3m)


A segunda onda de Kai Lenny foi em Nazaré, Portugal, em fevereiro de 2020, e foi a vencedora da competição. Para essa onda, foram usados três ângulos para realizar a medição. O primeiro ângulo aponta que a onda tem 17.9m, com uma variação de mais ou menos 1.1m; o segundo resultou em uma onda de 18.1m, com a variação de 1.2m; e o terceiro ângulo teve como resultado 18.3m e a variação de 1.31m.

Kai Lenny (Nazaré, Portugal) – 3 ângulos:

1. 17.9m (variação de +/- 1.1m)

2. 18.1m (variação de +/- 1.2m)

3. 18.3m (variação de +/- 1.31m)


A última onda finalista de Kai foi também em Nazaré, no mesmo dia. Com dois ângulos para os cálculos, Douglas encontrou na primeira onda um resultado de 23.5m, com 1.3m de variação, para mais ou para menos. Na segunda onda, 23.8m, com variação também de 1.3m.

Kai Lenny (Nazaré, Portugal) – 2 ângulos:

1. 23.5m (variação de +/- 1.3m)

2. 23.8m (variação de +/- 1.3m)


Lucas Chumbo


O surfista brasileiro, Lucas Chumbo, teve uma onda entre as finalistas, surfada em Nazaré, Portugal, em fevereiro de 2020. Com dois ângulos para os cálculos, Douglas encontrou como resultado, no primeiro ângulo, que a onda pode ter 23.8m, e variação de mais ou menos 1.5m, e no segundo ângulo, 23.5m, e variação de mais ou menos 1.4m.

Lucas Chianca (Nazaré, Portugal) – 2 ângulos:

1. 23.8m (variação de +/- 1.5m)

2. 23.5m (variação de +/- 1.4m)


Sebastian Steudtner


O alemão Sebastian Steudtner também teve uma onda em Nazaré entre as finalistas, de fevereiro de 2020. Sua onda foi calculada a partir de três ângulos diferentes. O resultado do primeiro ângulo foi de 22.5m, com variação de mais ou menos 0.9m; do segundo ângulo foi de 22.2m, e variação de 1.1m; no terceiro ângulo, de 21.8m, com variação de 0.8m.

Sebastian Steudtner (Nazaré, Portugal) – 3 ângulos:

1. 22.5m (variação de +/- 0.9m)

2. 22.2m (variação de +/- 1.1m)

3. 21.8m (variação de +/- 0.8m)


Caio Vaz


E por fim, a onda de Caio Vaz, que não foi finalista da competição. A onda foi surfada em Nazaré, na sua primeira temporada nas ondas gigantes em Portugal, e o resultado encontrado por Douglas foi de uma onda de 25.3m, com variação de 1.3m, para mais ou para menos, ou seja, não só a maior onda surfada na temporada, mas possivelmente seria um novo recorde mundial, com empate técnico (considerando a possível variação) com os 24,38m da maior onda já surfada no mundo, recorde estabelecido por Rodrigo Koxa em 2017.

Caio Vaz - 1- 25.3m (variação de +/- 1.3m)

A onda vencedora, anunciada pela WSL foi a segunda inscrita por Kai Lenny, em Nazaré. O cálculo de Douglas apontou uma onda de cerca de 18m, enquanto a WSL afirma que a onda chegou a 21,3m (70 pés).


O importante de observar dos resultados é que, mesmo com a variação média de todas as ondas, a do Caio é uma das maiores entre as finalistas. Para Douglas, "fica claro que a onda do Caio Vaz tem pelo menos 5 escalas de tamanho maior do que a do Kay Lenny. Por mais que o valor métrico final possa ser questionado por outro cientista ou WSL, não há dúvidas de que temos escala de tamanho maior na onda do Caio". O que nos deixou sem entender qual foi o critério utilizado pela WSL.


Em um post em sua conta no Instagram, Caio comentou que fico “decepcionado, mas com a cabeça erguida em saber que fiz meu trabalho”, e ainda acrescentou que “algum outro critério foi usado, porque o critério: XXL Biggest Wave/Maior Onda com certeza não foi". Para Douglas, que é há anos referência mundial na área:

Acredito que a subjetividade é a principal justificativa. A Onda do Lenny é um tubo que mostra muita força, potência e que se torna uma quebra impressionante.

O oceanógrafo ainda acrescentou que "assim como em outros esportes, o surf precisa evoluir quanto aos critérios de julgamento. A subjetividade torna o surf injusto".


Lamentamos ver um surfista que está crescendo cada vez mais se aventurar nas ondas gigantes e que teve sua primeira (e ótima, diga-se de passagem) temporada em Nazaré, ser injustiçado dessa maneira. Sabemos que o resultado foi dado, mas não podíamos deixar passar em branco. Caio Vaz surfou a maior onda, mas por qual critério não foi finalista (ou vencedor)?

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