• Fernanda Bahia

Muito além do Surf Feminino: Escolhas naturais x Questões sociais/culturais

Depois do meu primeiro post aqui no Crowd Florido, uma discussão foi levantada nos comentários de uma imagem no Instagram: ‘é “natural” que mais homens prefiram os esportes radicais, enquanto mulheres preferem assistir tutoriais de maquiagem no Youtube, e não campeonatos de surf na televisão’. Mas, será?

Durante minha pesquisa para o meu trabalho final de conclusão (TCC) em jornalismo, onde como resultado além de estruturar o Portal ManaSurf (portal voltado totalmente para notícias do surf feminino) e pensar em todas as editorias e escolhas que faria como parte do projeto prático, também precisei escrever um relatório de produção. Nesse relatório, existia uma parte totalmente teórica que consistia em justificar as escolhas que fiz para montar o meu projeto.


Boa parte disso foi entender como a mulher se inseriu no mundo dos esportes historicamente, em um recorte temporal mais recente e somente no Brasil.

Um motivo em específico, explica o porquê de os homens preferirem esportes radicais e as mulheres estarem tão ausentes nessas práticas. E explica, principalmente, o porquê de isso não ter nada de “natural”. A inserção das mulheres no esporte aconteceu no final do século XIX, início do século XX. Inicialmente, havia um discurso, principalmente por parte de médicos higienistas, que defendiam a prática esportiva como algo que prepararia o corpo da mulher para ser mãe, deixando-a mais saudável para cuidar dos seus filhos. A partir daí, a prática esportiva se tornou uma maneira das mulheres socializarem e participarem mais da vida pública. Algo que não agradou aos homens do início do século XX.


No final da década de 30, um decreto de lei foi instituído pelo Conselho Nacional de Desportos. O artigo 54 do Decreto-Lei dizia que “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”. O decreto era algo bem generalista e não ficava claro quais esportes seriam ou não compatíveis com a natureza da mulher. Nesse momento, até mesmo o futebol seria proibido pelas mulheres, que montaram times clandestinos para se manterem na ativa.

O fato é que a lei afastou, e muito, as mulheres das práticas esportivas num geral, e legitimou um discurso de que mulheres não deveriam fazer esportes.


A lei só foi revogada cerca de 30 anos depois, quando, no período da ditadura militar, era imprescindível que o país fosse bem nos esportes, como uma maneira de legitimar o que estava sendo feito na política. Era uma maneira de tornar o governo popular, e tanto as mulheres quanto os homens eram importantes para que o país fosse bem nos esportes de uma forma geral.


"Ok, Fernanda, entendemos, no século passado as mulheres foram proibidas de praticar esportes por quase 30 anos. E daí? Estamos no século XXI já". Bom, e daí que o que vocês acham que esses 30 anos deixaram de sequelas no imaginário popular? Na socialização como um todo? Será que é mesmo “natural” que as mulheres prefiram usar maquiagem do que praticar esportes? Ou será que isso não foi ensinado a nós, pela sociedade, como herança de um país em que mulheres jogando futebol, por exemplo, era algo proibido?


E questiono além disso: será que gostarmos de maquiagem é o oposto de querer praticar esportes radicais? Ou podemos fazer os dois?


No último domingo, dia 15/02, participei do evento "Carnasurf", realizado pela Langai em parceria com a Bailarinas do Mar e encontrei uma cena que respondeu exatamente essa pergunta: Meninas fantasiadas para o carnaval, de rosto pintado, cabelos presos em penteados, coroas de flores, indo surfar. O crowd mais colorido e lindo que já vi.

CarnaSurf Langai e Bailarinas do Mar - Fotos: Yasmin Albanes e João Braga


Porque podemos sim ser femininas, surfistas, maquiadas e tudo o mais que quisermos. E não há nada de natural nisso. É uma escolha. Uma escolha que passa por tantas questões que seria difícil de listar aqui. E uma escolha que vai contra muito do que nos foi ensinado por toda a vida. E é por isso que estarmos na água, todas juntas, é resistência todos os dias.


Fecho esse post com um P.S. importante, que não achei que seria necessário pontuar aqui. Essa coluna que o ManaSurf participa no Canal Surf Storm, o Crowd Florido, é um blog. Um espaço onde eu escrevo baseado na minha vivência, na minha experiência pessoal. Apesar de eu ser jornalista, e entender o valor de fontes e dados para corroborar o que está sendo dito, sei também que a vivência é algo poderoso para levantar questionamentos e entender melhor o funcionamento da sociedade. Por isso, nem sempre o que eu falo aqui vai ter um valor jornalístico, o que torna o texto algo que pode ser colocado em discussão, mas não necessariamente é uma mentira ou um achismo sem valor.


Espero que possamos ter essas discussões de forma amigável, sem diminuir a vivência e os questionamentos que estou trazendo aqui, mas claro, sempre de forma que possamos crescer e evoluir o debate. Não estou escrevendo exclusivamente para mulheres, se conseguir fazer alguém com atitudes machistas (mesmo que o faça sem querer) perceber que foi machista e gerar uma mudança, já vai ser um ganho inigualável.

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