O crowd floriu, mas nem tudo são flores...

É fato que o surf feminino vem crescendo nos últimos anos. Apesar disso, as atletas brasileiras passam por muita dificuldade para competir e conseguir representar o surf feminino brasileiro mundo a fora. No #CrowdFlorido de hoje, falamos da falta de apoio às atletas de surf no Brasil, com entrevistas à grandes nomes (e promessas) do surf feminino

Na primeira matéria da coluna, comecei declarando o crescimento do surf feminino por todo o país, tentando de alguma forma afirmar que agora nós mulheres conquistamos o nosso lugar ao sol, ou melhor, dentro do mar. O crowd enfim floriu mas infelizmente nem tudo são flores.


Dois dias depois do lançamento aqui da coluna, vi no instagram um vídeo da surfista de ondas grandes Raquel Heckert, atleta qualificada pela WSL. Raquel já participou de campeonatos no Hawaii, México, entre outros muitos lugares faixa preta!

No entanto, no vídeo (disponível ao lado), a atleta desabafou sobre a falta de apoio e incentivo do surfe de base à atletas, ainda mais quando falamos do surf feminino.


O vídeo dela me emocionou e me fez perceber que esse não é um problema isolado de uma atleta, mas sim uma realidade de várias surfistas por todo o país, e foi um dos motivos que me fez escrever essa matéria.

Raquel Heckert descendo uma BOMBA em Puerto Escondido

Conversei com Raquel via whatsapp, pois ela estava competindo em Puerto Escondido, e ela não esconde a dificuldade de se manter no esporte mas dá para perceber seu amor pelo surf enquanto fala. Foi para o México com a passagem só de ida pois ela seria a primeira a ser chamada na lista de espera do campeonato e acabou ficou em 4° lugar, competindo ao lado das mulheres mais referências no surf de onda grandes no mundo ( se isso não é motivo de orgulho e apoio $ , não sei o que é)..

Ela me contou que gostaria de estar fazendo muito mais pelo Brasil, pelo crescimento do surf feminino e do esporte, mas que infelizmente é difícil demais arcar com todos os custos praticamente sozinha. Transporte de pranchas, passagens caríssimas, já que sempre são compradas de última hora por causa dos swells, o que não permite um planejamento antecipado e a falta de apoio, limitam muito o desempenho da atleta que gostaria de estar com sua performance muito mais a frente, pegando mais swells.


Além disso, Rachel tem focado em trabalhar para conseguir mais apoio e novos patrocínios para alcançar seus objetivos, mas enquanto isso, acaba por fazer a atleta perder um pouco o foco do treino para realizar esse tipo de ação.


E não é só no surf de ondas grandes onde as atletas sentem falta de apoio para competir.. No surf “performance”, temos vários casos que evidenciam essa falta de investimento no esporte, e ainda mais, na categoria feminina.


WSL lançou campanha "Iguais por natureza" ao igualar as premiações feminina e masculina no tour

A mudança no ano passado da premiação da Liga Mundial de Surf entre as categorias femininas e masculina, se tornando iguais, com certeza é um passo gigantesco para a evolução do surf feminino, mas já se passou um ano e é um caminho longo até se chegar lá, tanto na elite, como no tão famoso "direitos iguais". No Brasil, não há esse investimento todo no surf de base, quanto mais na base feminina, que é justamente o caminho para a maior evolução do esporte.


Uma mudança importante no Brasil, foi na premiação da ABRASP, que está com a inédita igualdade nas premiações masculino e feminina em 2019 e ainda voltou à contar com 7 etapas femininas no ano. Mas infelizmente, isso não é o suficiente, pois as competições ainda não contam com um calendário fixo, o que gera custos mais altos e dificulta todo o planejamento das atletas no ano.

Monik Santos quebrando tudo - Foto: Laurente Masurel / WSL

Sabendo disso, conversamos com a atleta Monik Santos, que no início do ano, o Canal Surf Storm divulgou e apoiou a campanha virtual da atleta, que inclusive chegou a sair no site Globoesporte.com. Monik buscava arrecadar dinheiro através de uma “vaquinha online” para conseguir ir competir na perna australiana das etapas do QS e tentar uma vaga na tão sonhada elite mundial de surf, no próximo ano. Perguntamos então sobre toda essa questão de falta de apoio e sobre a decisão de realizar a vaquinha virtual:

"Eu entrei muito focada em 2019, simplesmente não há apoio, e o que existe não consegue bancar esses custos de viagem. A gente tem um sonho e tem que seguir, essa (a vaquinha online) foi a solução que encontrei na época, e não me arrependo.” - Monik Santos.

Monik ainda me falou sobre o lado psicológico da coisa:

É complicado quando você não sabe se terá recurso para a próxima etapa competição, se perde um pouco de energia com essas incertezas de se vou conseguir ou não participar do próximo evento, para mim é devastante psicologicamente falando. Eu acredito muito na minha determinação de realizar meu sonho, é o que não me deixa desistir, é muita correria para fazer esse sonho acontecer. Nem eu sei como consigo correr algumas competições, é dinheiro emprestado, vende alguma coisa aqui ou ali, trabalho com outras coisas, faço as vakinhas online, quando meu pai consegue ele me ajuda e assim vou me virando.

Perguntamos ainda sobre os objetivos de Monik:

Meu maior objetivo agora é focar no nacional mas quero seguir para o QS e brigar por uma vaga na elite nos próximos anos, e com patrocínio ficaria tudo muito mais fácil.

Entrei em contato também com a surfista cearense, mas que mora no Rio de Janeiro, Yanca Costa, que tem apenas 19 anos e também teve que partir para a “vaquinha online” para conseguir bancar os custos das competições e levantar a bandeira brasileira (e do surf feminino) por ai. Logo no inicio da conversa, Yanca ainda me contou um episódio recente de uma situação chata que une o machismo que ainda vivenciamos no esporte junto à falta de apoio às atletas onde algumas meninas tiveram que questionar o "porque o feminino tinha apenas 2 etapas e o masculino 4", ouvindo a justificativa de que "poucas meninas participam, o que gera um “gasto desnecessário” aos patrocinadores do evento.


Além de situações como essa e do apoio não chegar às atletas, Yanca sugere como possível solução a melhora da organização do calendário dos campeonatos, que apesar do cenário ter melhorado neste ano, onde, como mencionei antes, o circuito da ABRASP está contemplando 7 etapas do feminino, além da inédita igualdade nas premiações masculino e feminina, as meninas que não contam com apoio seguem com muitas dificuldades de se organizarem com antecedência para participarem de todos os eventos, devido ao calendário mal definido, o que aumenta os custos e dificulta a participação das atletas.

Apesar de ser uma das grandes promessas do surf feminino brasileiro, Yanca não tem um patrocinador principal e tem que arcar com os próprios custos para treinar e competir

Apesar de ter ganhando uma etapa do brasileiro e ter ganho destaque em 2019, Yanca ainda está tendo um ano difícil, pois não tem um patrocínio principal, o que a faz ter que arcar com os próprios custos para treinar e competir, contando com a ajuda da família e amigos que a emprestam dinheiro, que ela repõe após receber as (burocráticas) premiações, para seguir a busca pelos seus sonhos.


Mas então perguntamos, se nesse momento que o surf está na sua “era de ouro” no Brasil, o investimento de apoiadores e patrocinadores não começar a surgir, quando irá? O Surf é uma modalidade olímpica, gente. Quer mais visibilidade do que isso?


Os pais de Chloé Calmon, Ana e Miguel, acompanharam a atleta durante todo o Pan-americano em Lima

Na contramão de todo esse cenário, e falando da importância do surf se tornando um esporte olímpico, conversamos também com Miguel Calmon, pai da longboarder Chloé Calmon, atual líder do ranking mundial, que está nesse momento em Lima representando o Brasil nos jogos Pan-americanos. Chloé adquiriu veia competitiva desde cedo, quando ainda era atleta de natação. Aos 12 anos Chloé passou a competir de longboard e aos 15 venceu o campeonato brasileiro PRO (tinha entrado como amadora e alternate e ainda assim acabou vencendo). A partir daí, Chloé como uma grande promessa, fechou seu primeiro patrocínio importante (A Roxy).

“Nossa família sempre foi muito unida e viajamos juntos várias vezes com ela, dando todo apoio necessário para avançar na carreira. Esse suporte da família é muito importante e com certeza ajudou à Chloé se tornar a grande atleta que é hoje.” - disse o pai da atleta.

Os resultados e a postura fora d’água ajudaram a trazer novos patrocinadores junto à grande exposição nas mídias sociais (beira os 300.000 seguidores) que ainda fortaleceram sua imagem como atleta.

“O ano de 2019 tem sido o melhor da história para o longboard brasileiro. A cereja do bolo serão os Jogos Pan-Americanos, onde pela primeira vez o surf estará fazendo parte do ciclo olímpico, o que dá outra dimensão para o esporte. Esta sólida exposição da mídia não especializada e TVs abertas, dão um grande potencial para o desenvolvimento do esporte no futuro.” - finalizou Miguel.

O fato é: O Brasil hoje é uma potência do surf mundial, principalmente na categoria masculina, mas para que outras Silvana’s e Chloe’s surjam para tomar o seu espaço na elite feminina do surf, é necessário apoio, estrutura e investimento para as atletas da base. e quando isso acontecer, tenho certeza que o surf vai florir ainda mais no nosso país.


Ah, e um grande salve* para as marcas que hoje investem no surf feminino e buscam dar o seu apoio para as atletas. Não é merchand, é só importante mesmo criarmos essa consciência de valorizar quem investe de verdade no futuro do esporte. O problema é que hoje podemos contar nos dedos quem realmente faz isso.

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