• Fernanda Bahia

Quebre como uma menina! Relato de uma surfista em Bali

Em uma viagem para Bali, a Barbara Rizetto contou do dia que foi surfar e chegou no outside no meio de um crowd de quase 40 homens. Se você é mulher e surfa, com certeza já passou por uma situação parecida. Eu já.

A surfista Bárbara Rizzeto vem fazendo uma viagem fora de época para a ilha paradisíaca do surf, Bali, que parece não ser tão paradisíaca assim para as mulheres, por alguns de seus frequentadors. A série "Em bali com a Bá" que vem rolando desde que começou a viagem pelos stories do @canalsurfstorm com relatos da surfista, teve no seu 7º episódio uma situação de machismo, triste de se ver, mas infelizmente comum no meio do surf.


Se liga no relato da Bárbara:

"Relatos de uma mulher surfista num mar de homens: Fui surfar sozinha em Pandawa, Bali. Não conhecia a onda e nem ninguém na água, eu era a única menina no meio de um crowd grande de homens. 40 minutos se passaram, nenhuma onda surfada, ninguém deixava eu ir. Eis que sobra uma, alguém caiu, la vou eu... fiz a onda toda, foi irada!
Volto pro outside e um cara me diz: “Até que você quebra pra uma menina”, oi? eu viro pra ele e respondo: “meu amigo, eu quebro como uma menina. Meninas quebram!!!” Fica aqui uma reflexão pra que todo mundo entenda que a essência do surf é compartilhar, se divertir, e respeitar seja la quem for. Todo mundo tem direito de surfar, e num ambiente lotado de homens ( que são 5x mais fortes) eu não to pedindo privilégios ou gentilezas, só respeito. Let the girl surf!"

Surreal, não é? Parabéns à Bárbara pelo relato, expor situações do tipo que são mais comuns do que aparentam.. mas que quem não vive, não vê.


Eu mesma, como muitas outras meninas, já passei por situações parecidas, aqui mesmo no Brasil.


Fui surfar um dia no Grumari com um grupo que saía de Niterói para pegar onda no Rio aos domingos. Todos homens. Na água, mais homens. Nenhuma mulher no outside. Nenhuma mina para contar história. Me vi completamente acuada, assustada. Sem saber surfar muito bem, o medo de rabear um dos caras que estava ali era imenso. Porque mina, quando está na água, quer mais é dividir as ondas com outras minas. Não só deixa a melhor da série para você, como grita com todas as forças palavras de apoio. Mas com homem, nem sempre é assim.


A Barbara, por exemplo, precisou de 40 minutos esperando no outside para sobrar uma onda para ela. E quando veio, só pegou a onda porque um dos surfistas tinha caído. Fez a onda até o final. E depois precisou ouvir de outro cara que “até que ela quebrava para uma menina”. Com a língua afiada, respondeu que quebrava como uma menina. Porque meninas quebram, e ponto.


A sensação de surfar sozinha, para uma mulher é, na verdade, surfar sem nenhuma outra mina por perto. Sem a empatia que quase nenhum homem tem quando vê uma mulher na água. Surfar sozinha é surfar rodeada do preconceito porque “mulheres não surfam”.


Mas mulheres surfam sim. Lembro mais ainda do dia que fui surfar e no carro éramos todas mulheres. Amigas. Nas mesmas ondas de Grumari, no mesmo outside com uma crowd parecida de homens. Mas dessa vez, com minhas amigas do lado.


Nesse dia eu peguei uma das ondas mais incríveis da minha vida. Eu não estava nem pronta para virar e remar. A Yasmim só falou, “Fernanda, não olha pra trás, só rema”. E eu remei. Se estava vindo um tsunami atrás de mim, eu não sei. Mas eu fui. Senti o drop direitinho e fiz a onda até o fim. A Yasmim torceu por mim como nenhum amigo homem torceria. Naquele dia eu senti que pertencia ao outside tanto quanto os outros surfistas que estavam lá.


E nesse dia eu aprendi que surfar junto é surfar acompanhada de outras mulheres. E entendi isso que a Bárbara quis dizer, que mulheres quebram e ponto. Porque não existe isso de “surfar bem para uma mulher”. A gente surfa bem e pronto. E hoje eu ressignifico a frase “quebre como uma mulher”. Hoje, para mim, quebrar como uma mulher é surfar com a alma e com o coração, gritando palavras de apoio, mostrando a onda boa para outra pegar, deixando de lado a competitividade e entendendo que, de verdade, tem onda para todas.

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