Registros feitos no mesmo dia na Barra da Tijuca chocam e evidenciam a poluição das praias cariocas

Registros feitos na última quinta-feira (21) pelo fotógrafo João Ricardo Januzzi cedo pela manhã com a água cristalina no canal da Barra e 3 horas depois, do mesmo local, pelo biólogo Mário Moscatelli, do esgoto sendo desembocado no mar, alertam para poluição e falsa sensação de "água limpa", que é temporária devido ao fenômeno da maré

Ano novo, o mesmo esgoto.


Há anos vimos a mesma cena se repetir da fotografia com a "língua negra" de esgoto desembocando do canal da Barra da Tijuca (RJ) no Quebramar. Para nós, surfistas, já é habitual surfar no tradicional ex-palco do CT, o Postinho, pico de surf próximo ao canal, em meio ao esgoto e cheiro de enxofre no mar naquela região. Fato inclusive que era crítica constante dos atletas profissionais do Circuito Mundial de Surf à organização, quando a etapa era realizada na cidade do RJ, resultando na pressão para que a etapa fosse transferida.


Pois bem, nada novo sob o sol, não é mesmo?


Foto viraliza, sai matéria, reportagem, há alguma comoção da população mais consciente que reclama do governo que não toma nenhuma atitude, o assunto desaparece, e nada é feito, já que saneamento básico não é prioridade para nenhum governo do Rio de Janeiro que tem muitos outros problemas "mais sérios" à serem resolvidos, afinal, meio-ambiente e saneamento não dão voto, não é mesmo?


Enfim, aqui estamos de novo, relatando o fato logo no começo de 2021, mas com uma curiosidade, que dessa vez, ficou por conta do fato do registro do esgoto desembocando no mar (comum, graças ao trabalho incessante de ambientalistas como o @MárioMoscatelli que fez mais uma vez o flagrante) ter sido realizado no mesmo dia em que fotos de um mar caribenho foram tiradas horas antes, pelo fotógrafo @JoãoRicardoJanuzzi no mesmo lugar.

"Infelizmente não é a primeira, nem a última vez (que vive uma situação como essa no RJ). Estamos mais que acostumados em ver a água por ali suja, assim como em São Conrado. Mas em São Conrado existe a galera do projeto "Salvemos São Conrado" sempre alertando. Ficamos até surpresos quando vemos a água perfeita por ali e nunca tinha conseguido tempo para ir aproveitar e fotografar, dessa vez consegui e foi por pouco! Eu venho planejando essas imagens faz tempo e quando vi que as condições estavam como eu queria, fui correndo porque sabia que não iria durar muito tempo. - nos contou o fotógrafo João Januzzi, que disse ainda que chegou ao local às 9h e às 11h já era perceptível a transformação do mar.

Postagem de João Januzzi viralizou nas redes sociais.

Fotógrafo/filmaker, divulgou video no Youtube que mostra a diferença da água ao longo da manhã.


Bom, mas porque será que esse 'fenômeno' acontece? Conversamos com o especialista, o biólogo marinho e perito ambiental, Raymundo Quezada, que nos explicou o caso:

"As imagens evidenciam o fenômeno conhecido como "troca de maré", onde em determinada hora do dia a água do mar entra para o canal (no caso foi o momento em que a água esteve clara) e outra hora há o efeito inverso (quando a água do canal vai para o mar). Este fenômeno normalmente, já faz a coloração da água ser alterada, ficar mais turva e esverdeada, mesmo em locais não urbanos, pela água do rio ser carregada de materiais orgânicos naturais, porém, em centros urbanos como o Rio de Janeiro, onde não há o devido tratamento de esgoto, que é despejado indevidamente direto no canal, como o caso da Barra, fica ainda mais evidente a diferença da coloração da água, que além da matéria orgânica, se mistura ao lixo e esgoto não tratados que chegam ao mar durante o esvaziamento da maré.

Raymundo ainda acrescentou que o fenômeno registrado nas fotos, ficou ainda mais evidente devido à época do ano:

No caso da grande disparidade entre as fotos, o fenômeno se tornou ainda mais evidente por dois outros fatores: Nessa época do ano, há um aumento da proliferação de bactérias e algas nas lagoas devido ao calor, tornando a água ainda mais turva do que o normal, além de que estamos vivendo outro fenômeno com a chegada de correntes de sul, provenientes da patagônia, que trazem uma água fria e extremamente clara.

A poluição não é novidade em grandes cidades como o Rio de Janeiro, e que apesar de convivermos com ela diariamente, fica evidente em situações como essa. Qual é a solução?

A poluição em canais e lagoas em grandes cidades acaba se tornando um problema crônico. A solução efetiva é tratar, ter sistemas de coletas de esgoto adequado, sistemas de coleta da água de chuva separados e com tratamento, além de políticas públicas investindo no saneamento básico e o devido tratamento de lixo. Essa é uma solução complexa e cara, que é dificultada ainda mais com o crescimento demográfico desordenada que intensifica essa poluição. Infelizmente essas soluções são colocadas sempre em 2º plano pelas políticas públicas.

Ainda este ano, logo nos primeiros dias de 2021, quando tivemos uma grande variação de maré provenientes da "Super Lua", foi registrado pelo fotógrafo Ricardo Índio e relatado ao Canal Surf Storm pela bodyboarder e fotógrafa Yana Vaz, que uma das praias consideradas mais límpidas do país, tendo inclusive o selo "bandeira azul" que aferem a qualidade ambiental do local, a Prainha, também foi alvo da poluição e da falta de saneamento básico da cidade do Rio de Janeiro, com o despejo inadequado (quer dizer, dentro dos parâmetros da lei) do esgoto, dessa vez provenientes do canal de Mangaratiba. A poluição foi sentida da água pelos surfistas (alguns profissionais inclusive que tiveram gastroenterite nos dias seguintes ao surfar na praia).


Felizmente, neste sábado (23) iniciou-se uma operação de restauração das áreas "Prainha-Grumari" com medidas como o fechamento das cancelas de acesso às praias a partir das 8h30 e a inclusão de agentes para garantir a ordem e a preservação ambiental da região, o que tende a diminuir a incidência de lixo nas reservas da Prainha e Grumari.

Apesar destes esforços, sabemos que o buraco é mais embaixo e a falta de saneamento básico e o despejo irregular do esgoto nos mares e rios é um problema que assola a cidade há anos, e que há anos os governantes vão empurrando o problema com a barriga para que o próximo resolva a situação... até que um dia, será irreversível, e as praias do Rio de Janeiro passarão à ser uma grande Baía de Guanabara ou Praia de Icaraí.


Então fica a reflexão. O problema é do governante, que não faz, ou do povo, que na sua maioria, não da prioridade que seja feito? Afinal, isso não dá voto, não é mesmo? E seguimos nadando entre uma maré e outra no Rio de nojeira enquanto ainda (fingimos que) pode.

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