Surfando em beach-breaks: Como saber quando o "fundo está bom"?

A maior parte das praias do Brasil são beach-breaks, ou seja, ondas que quebram sobre um banco de areia e você já deve ter ouvido a expressão, "ah, o fundo ta ruim/bom", mas você sabe o que isso significa, e porque "o fundo" é tão importante pro surf? Nessa matéria da coluna "Surf e Ciência", o oceanógrafo Douglas Nemes explica a influência do banco de areia na formação das ondas, e qual é o cenário ideal para formar os dias clássicos de surf

Sabe aqueles dias que a previsão de ondas parece estar com tudo alinhado para rolar um dia clássico? Tamanho, direção do swell, maré, vento perfeito pro pico... Ai você chega na praia e se decepciona, não é mesmo? Pois é, o grande "culpado" disso, são os fundos de areia, que mesmo com todas as "condições ideais", se não estiver da forma ideal, não vai existir aquela "vala perfeita" e o tão sonhado mar clássico.

Mas por que os beach breaks são tão inconstantes e os bancos acabam tendo toda essa influencia nas ondas? As praias arenosas são os ambientes mais dinâmicos do planeta, onde cada tipo de onda (altura, período e direção) que chega, movimenta os bancos de areia de um certo modo, gerando sempre uma nova condição de fundo. Não há dúvidas de que o surfista que consegue entender a dinâmica dos bancos de areia geralmente escolhe os melhores picos para ir surfar.

Uma vez que o surfista entende a influência do fator "fundo" na formação das ondas, e não basear sua escolha de pico somente em "tamanho de swell" e "vento" na previsão, é quase certo de que ele conseguirá escolher a “valinha” perfeita para a “queda” e pegará muito mais bons dias de surf. Então aqui vai a boa notícia... você vai terminar de ler essa matéria, sabendo como entender melhor quando o fundo vai estar ideal para o surf e talvez nunca (ou quase nunca) vai se decepcionar de novo.


Hoje, não existe um modelo para previsão exata do tipo de formação dos bancos de areia, ou seja, do estado morfológico da praia. O custo de produzir um modelo de previsão em relação ao fundo seria altíssimo, além de demandar anos de pesquisas detalhadas de dados nas praias. Mas então, como podemos saber que "o fundo está bom ou ruim" e que haverá um dia clássico de surf?


Se o modelo morfológico dos fundos é algo inviável, hoje, existem algumas equações matemáticas que conseguem qualificar o “jeitão da praia”. Esses resultados foram associados às possíveis morfologias das praias, as quais foram criadas a partir de anos de observações dos cientistas.

Na imagem acima, trouxe um exemplo do mais famoso e respeitado desses modelos, onde o parâmetro indica que a forma da praia depende dos valores de altura de quebra da onda, período da onda e do tamanho do grão de areia que a praia possui. Então, por exemplo, sabemos que as areias das praias podem ser mais finas do que os grãos do sal de cozinha ou grossas, tipo o sal de churrasco. Quando o grão de areia for suspenso na coluna d’água pelas ondas e correntes, a velocidade com que ele chega até no fundo será diferente para cada tipo de praia. Esta informação é superimportante porque definirá o parâmetro de forma da praia para cada tipo de onda.


Então, preste atenção no tipo de areia da sua praia e nos valores médios dos parâmetros de ondas que apresentarei a seguir, para que você tenha uma ideia de previsão da forma dos bancos de areia e aprender a como escolher aquela "vala clássica".


Os cientistas afirmam que a maioria das praias ao redor do mundo tem o tamanho do grão de areia entre os dois extremos “sal fino e sal grosso”, ou seja, tem aproximadamente entre 0,200 mm a 0,600 mm. Isto inclui a maioria das praias do Rio de Janeiro, Silveira, Ferrugem, Praia Mole, Praias do Espírito Santo, Bahia, entre outras Brasil a fora que estão nessa faixa mais comum de ser encontradas.

Já os extremos de areia fina são as praias dissipativas, cuja principal característica é a longa distância da zona de arrebentação da praia, ou você não reconhece essa diferença quando está fazendo uma trip? Alguns exemplos são as praias do Rio Grande do Sul, Paraná, Sul de São Paulo e Pará.

No extremo de areia grossa estão as praias chamadas de refletivas, as quais têm a quebra das ondas muito próximas da praia: Paúba, Itacoatiara e Hossegor são grandes exemplos das praias surfáveis, pois a grande maioria deste tipo de praia é insurfável. Repare nas imagens abaixo como as ondas quebram perfeitas, pesadas e perto da areia.

A morfodinâmica das praias dos 17 estados costeiros do Brasil (4.174 praias) está reunida num livro chamado “Brazilian Beach Systems”, que pode ser comprado pela internet ou acessado em bibliotecas públicas nas principais universidades do país.


Então, voltando à "fórmula mágica": é preciso saber fazer equações matemáticas e a espessura do grão de areia para saber quando o fundo vai estar bom? Bom, não necessariamente, mas sabendo da importância desses fatores que falamos ali em cima, vamos explicar como a maioria das praias funciona e melhorar nossa interpretação para cada previsão de ondas e escolha do pico perfeito:


Vamos imaginar a seguinte situação:


Um swell grande acaba de chegar no litoral (ondas de 2m ou mais e período de mais de 12s), nesse caso, a resposta das praias para ondas grandes é a retirada da areia da praia (zona emersa) e colocar em forma de bancos submersos bem afastados. O banco outside terá a forma paralela à praia, na mesma orientação da crista das ondas que estão chegando. Infelizmente, você verá ondas do tipo “fechadeiras” e provavelmente não irá surfar, este é o famoso “o fundo não aguenta grandes ondulações”, porque o fundo está homogêneo ou linear com as cristas das ondas incidentes. Neste caso, procure picos ao lado de costões, molhes ou piers, tipo Arpoador, Pontão do Leblon, Pico de Matinhos, Joaquina, Canto direito da Silveira, etc.


À medida que a energia das ondas deste swell vai diminuindo (ondas com períodos entre 8s e 10s e alturas de quebra de até 2m) a resposta do sistema é “empurar” a areia de volta para à praia (zona emersa). Isto faz com que o banco outside comece a “migrar” na direção da praia e a sua forma paralela seja modificada para uma forma irregular ou sinuoso/rítmico. Isto é excelente para nós surfistas, porque com o banco de areia rítmico haverá convergência da onda sobre as partes mais rasas e divergência nas partes mais profundas. Como resultado, você surfará altas ondas na direção dos canais de retorno, os quais são transversais à praia e quebram a linearidade do banco que está no outside.


Quando aquele swell perde ainda mais força (o predomínio das ondas passa a ser de períodos inferiores a 9s e alturas de quebra de até 1,5 m), parte do banco outside consegue “conectar-se” à praia. Isto define largos e rasos bancos de areia, os quais conseguem controlar longas direitas e esquerdas na direção dos canais de retorno. Excelentes condições de surf rolam com este tipo de morfologia da praia. Muitas vezes podem entrar swells com períodos maiores do que 10s sobre este tipo de fundo, gerando os dias mais clássicos de surf onde a altura de quebra da onda pode ultrapassar os 2m. Porém, tal condição dura poucas horas (um dia no máximo) pois o banco de areia se movimentará muito rápido, adaptando-se à condição hidrodinâmica predominante. É o famoso, “melhor momento do mar”, ou "antes de você chegar estava clássico (sim, nem sempre é mentira).

Por fim, quando o swell perde totalmente a sua força e nenhuma ondulação atinge a praia no período de 3 a 7 dias, a areia que estava submersa no banco do outside chegará à praia (zona emersa). Esta é a forma da praia que gera o famoso (e não desejado) mar “flat”, que rola muito no verão. Nesse caso, pequenas ondas geradas pelo vento local (período de até 7s e altura inferior a 1m) poderão ser uma opção para surfar bem próximo da praia nessa época do ano.


Claro, atrelado ao período e tamanho de ondulação influenciando no fundo, tem a importância da direção da ondulação, já que a exposição da sua praia às áreas de geração de ondas é muito importante para saber se o swell vai entrar ou não naquele pico. Por exemplo, ondulações de Sudoeste entram nas praias do Rio de Janeiro, porém passam "reto" pelas praias do Paraná e os picos de surf não funcionam. Exploraremos mais sobre a direção e áreas de geração de ondas numa coluna futura!


"Ah, entendi Douglas, mas ai quer dizer que nunca vamos poder aproveitar grandes ondulações em beach-breaks?" Praticamente, sim! Muitas vezes até é possível naquelas primeiras horas da entrada do swell, depois já era!


Já se você quer surfar um grande swell em um beach break, vá até praias que tenham grãos de areia grossos, tipo Itacoatiara-RJ, Paúba-SP, Estaleiro-SC ou as praias da França (Hossegor), onde os bancos de areia raramente ficam paralelos. Desse modo, o fundo consegue suportar a qualidade de surf e você poderá surfar big waves abrindo pra direita e esquerda.

Outra forma de surfar um grande swell em regiões de beach breaks, seria com os Recifes artificiais, mas aí também já é uma outra história para falarmos mais a fundo no futuro.


Basta saber que basicamente um recife artificial busca reproduzir a física dos recifes que produzem as melhores quebras de ondas no planeta, onde o objetivo é quebrar a forma paralela de um banco outside e passar a convergir a onda sobre sua estrutura, a fim de gerar longas direitas e esquerdas com excelente qualidade de surf.


Então enquanto o nosso próprio recife artificial não sai do papel, vamos nos conformando em entender melhor o funcionamento dos nossos "queridos" beach-breaks. E ai, conseguiram entender melhor como funcionam os fundos? Comece a praticar estas informações sempre que for surfar e é certo que daqui algum tempo você estará prevendo muito bem a formação dos bancos de areia e acertará os dias clássicos de surf!


Então lhes desejo boas ondas e até a próxima semana com mais uma matéria do Surf e Ciência.

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Autor: Dr. Douglas Nemes (@surfingandstudying)

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